Sinto-me contente por não estar apaixonado, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo. As pessoas apaixonadas tornam-se muitas vezes susceptíveis, perigosas. Perdem o sentido da realidade. Perdem o sentido de humor. Tornam-se nervosas, psicóticas, chatas. Tornam-se até assassinas.
[Hamlet]: Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente, quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de acção!
Não consigo parar de sonhar com você. Com minha cabeça cansada, deito meu cabelo em ti e me alojo em teu peito. Ouvindo as batidas compassadas do teu coração, acompanho o ritmo acelerado de tua respiração, passando, lentamente a ponta de meu dedo indicador em tua pele, seguindo as linhas do teu rígido abdome. Você, a cada arrepio contorcia suave e rapidamente o teu corpo, rindo baixinho a cada cócegas. Com minhas coxas sobrepostas sobre tua cintura, nossas pernas quase que entrelaçadas e nossos pés envoltos pelos lençóis, nossos dedos frios pelo ar parado que jazia no quarto. Roçava meu tornozelo contra sua canela, encostava minha pélvis contra teu corpo, singelos movimentos faziam com que teu pênis acordasse e ficasse duro para mim. Poucas gotas de suor escorriam por nossos corpos, apesar do frio sentia o calor nos tocar. Você, acariciava e passava seus dedos das mãos em meus cabelos, trazendo-me o sono, a vontade de deitar-me em cima de ti e beijar-te os lábios enquanto lhe seguro sem força pelo pescoço. Para depois encostar minha cabeça em teu peitoral e sentir sua respiração, sentir o ar entrar e sair, me balançando quase que imperceptivelmente como uma mãe que balança o berço de teu filho. Sendo nós, dois, apenas dois emanando calor debaixo de lençóis.
Sou daquele tipo de moça mais reservada, mais sóbria. Aquele tipo que esconde o que sente como quem nunca admite não saber descascar laranja.
━ Isabela Oliveira (via
azude)
Quem vê cara, não vê coração. Vi de longe um menino que parecia tão doce; com o coração, aparentemente, tão bom. Criei expectativas imediatamente, e caí do cavalo por acreditar apenas no que meus olhos vêem. Todos esses adjetivos moram apenas na aparência dele, por dentro ele é um poço de assombrações.
Sinto o peso de todas as verdades do mundo sobre os ombros. O peso dos movimentos do ponteiro do relógio, o peso do tempo impossível de deter, o peso do sol irretível que se levanta todas as manhãs e me obriga a levantar junto dele, quando meu corpo não aguenta sequer pôr-se sobre o chão. Sinto o peso de todas as lacunas sem respostas, dos hiatos da memória, do prazo que se diminui segundo a segundo. Sinto o peso das mudanças que não chegam, do vazio incompletável, do não me conhecer. Ando cansado e fraco, não consigo mais levar canções nos bolsos e nem mover a boca no menor dos murmúrios. Acomodei-me no mutismo confortável dos que não tem o que dizer.
O melhor do passado é a inocência. O não-saber. É tão simples ser criança, você é o que você quiser, até quando você quiser, sem essa história de que não vai conseguir. Você consegue voar, se quiser. Mas não consegue se imaginar voando. Persistência é uma meta. A gente se acostuma com o possível, ninguém quer ir além. Você consegue enxergar o infinito, se quiser. Mas não consegue olhar um palmo a sua frente. A gente é o que almeja. Aos olhos de uma criança, o mundo é uma bola azul. Aos olhos de um adulto, nem uma bola é. Tudo é o que nós queremos. Mas às vezes, a gente nem sabe o que quer. Pior do que não conseguir algo que se quer tanto, é nem ter algo para se querer.
Já vi borboletas voarem faltando um pedaço da asa e rosas incríveis desabrocharem num copo com água. E é disso que me nutro pra acreditar que a meteorologia nem sempre está certa e que dias cinzentos podem ser prefácios de noites com sol.